quinta-feira, 28 de março de 2013

Calendário e eu

A maioria das pessoas há de concordar que os homens, em um relacionamento, são um pouco esquecidos quando o assunto é data,  e que as mulheres insistem em lembrá-las. Coisas minímas como o primeiro encontro, primeiro beijo,o dia que o namoro se tornou oficial... Datas, datas, datas...

Dá um nó na cabeça de qualquer um, menos na cabeça delas, lembram de tudo, aniversário de namoro, casamento , nascimento e cobram, principalmente cobram que eles lembrem... Tá aí uma qualidade ou defeito feminino que não me pertence, que passa longe do meu ser...

Parece que vim com defeito de fábrica, não me acerto com o calendário,não guardo datas comemorativas pessoais, municipais, estaduais, nacionais ou internacionais. Aliás, por bem dizer, não guardo data alguma. E isso tem se tornado um problema de convivência social, as pessoas sentem-se esquecidas quando, por descuido não lhes felicito por seus aniversários quando encontro na rua, só na rede social...

Ora, pois é justamente  a tal rede social quem me salva de tal embaraço, se não fosse por ela, certamente nem por e-mail felicitaria os amigos, parentes, e principalmente o amado... Este é o que mais reclama, parece que a parte feminina do meu cérebro, que deveria ter o alerta de datas, ficou com ele, porque lembra de todas...

É engraçado acordar com um bilhetinho, cuidadosamente deixado por ele no travesseiro,em geral me lembrando carinhosamente de alguma data especial, foi o meio que encontrou para me livrar do constrangimento de não presenteá-lo nas "nossas datas". No desta manhã escreveu:

Amor

Hoje faz mais um ano que acordo ao teu lado, 

te vejo dormir tão docemente, 

com um sorrisinho sonolento, como se sonhasse com algo muito bonito

e me sinto o homem 

mais feliz e completo do mundo...

Tenha um lindo dia.

Beijos, querida.

Ps: Não te esperei para o café porque tinha uma reunião 

logo cedo no trabalho, mas deixei seu café pronto,

forte e sem açúcar, como você gosta. 

comprei seus alecrins e lírios brancos.

Á noite  jantamos para comemorar nosso aniversário de 

casamento... seis anos, parece que foi ontem.


  Levantei sorrindo, parecia mesmo que tinha sido ontem, lembrava com exatidão do nosso casamento, mas com  a agitação dos dias,sempre acabava esquecendo, ou só lembrava da data quando ele chegava  à noite com um lindo buquê de rosas vermelhas dizendo saber que minhas flores preferidas eram os lírios brancos, mas que a ocasião pedia.

Depois de me deliciar com as frutas, pães, doces e meu café amargo, sai na busca de um presente para meu amado, desta vez queria encontrar algo que falasse do quanto é importante pra mim toda essa compreensão e carinho, o quanto este ato simples dele, para me fazer lembar das datas durante esses anos de casados, tem sido um bálsamo para mim que sempre me sentir em dívida com  ele.

O amo muito, mas datas nunca foi o meu ponto forte, pergunto várias vezes no mesmo dia "que dia é hoje?", e ele acha graça, mas não foi sempre assim, no início do namoro custou  a crê que realmente era uma falha de memória minha, pensava que fazia de pirraça. Só para vê a carinha linda dele irritada. Depois do casamento de tanto me ver as voltas com calendários na porta da geladeira, do roupeiro, várias agendas de papel e eletrônicas entendeu que era sério o caso. 

E passou  a me ajudar, cola sempre um bilhetinho fofo na minha xícara(sabe que tomo café quase a toda hora), no meu estojo de lápis para desenho, na minha câmera fotográfica, no monitor, no espelho do nosso quarto, na minha estante de livros... Assim a medida que vou usando as coisas, vou encontrando os bilhetes e lembrando do que tenho a fazer.

Passei por várias lojas e não consegui me decidi a respeito do presente, voltei para casa frustrada sentei na frente do computador e comecei  a digitar este texto, quando fui pegar meu celular para fazer uma ligação havia um bilhete atrás dele, num desses marcadores coloridos que usamos  parar lembretes dizia assim:

      Amor,

 sei que seus textos

 são sobre coisas sérias

 e muito importantes...

 aqui não vai  dá para escrever tudo,

 vou para sua agenda.

Sai em busca da minha agenda abri na data de hoje e lá estava:

Como dizia querida, seus textos são relatórios importantes, mas seria um presente maravilhoso poder me tornar um texto teu, sinto que quando escreves tuas crônicas, falando das viagens do teu trabalho, falas com tanta intensidade, tanto amor, que sinto inveja dos teu amigos e companheiros de trabalho, inveja não, ciúmes mesmo, CIÚMES dos grandes.

Seria o melhor presente, me ler em você, 

porque quando você escreve transborda de amor

em cada letra... Mas não se sinta pressionada.

Beijos minha vida.

Te amo!

Pronto já estava aqui o presente, e eu nem sabia, até nisto ele me é especial... Te amo querido, e és muito mais importante do que tudo que escrevo.

 

 







 

 

  

sábado, 23 de março de 2013

Outono

Acordei um pouco menos cansada hoje, meu coração está leve, não há aquela sensação de fim, nem de começo ou recomeço, só me sinto bem para sair do quarto e ver o que há de novo no jardim...

 

Nem tinha me dado conta de que o outono chegou, e que a aurora se torna mais leve nesta época do ano, as folhas trazem o frescor do orvalho da noite anterior, por isso o ar fica mais fresco. O céu das sete da manhã de sábado estava claro, custou-me bom tempo para conseguir abrir os olhos sem sentir o incomodo da luminosidade intensa de um azul deslumbrante. Mas quando finalmente conseguir, pude contemplar a beleza dessa imensidão celeste adornada de  poucas e belas nuvens brancas, tão alvas e delicadas como o algodão da minha caixa de curativos. 

 

Fui sentar-me em baixo da árvore que fica do lado esquerdo do jardim, bem enfrente  a janela do meu quarto, olha-la daqui é estranho, depois de tanto tempo trancada naquela minha redoma planejada nos mínimos detalhes, saí é como se eu estivesse traindo meu único companheiro de solidão... Aquela janela se tornou minha entrada para o mundo real, mas nunca a saída da minha clausura interior. Nem mesmo aqui fora consigo me libertar dessa sensação de solidão profunda, de não pertencimento. 

 

E talvez seja isso mesmo, eu não pertenço a esse mundo, não falo do planeta, mas das formas de convivência, destes comportamentos todos que me causam medo e nojo, desta demasiada e frenética convivência social onde todos falam abertamente o que se passa em seus corações, e eu só consigo mostrar "a ponta do iceberg" o que está na superfíce, tão claro que nem precisava ser dito para ser notado. Mas há quem pense que me dou por inteiro, que falo do meu interior, numa entrega profunda e escancarada.

 

Chega ser engraçado ver  gente se compadecendo de mim, como se estivesse vendo meu coração por inteiro e apenas viu um micro pedaço, que caiu por descuido de alguma ferida mal cicatrizada, se visse minha alma despida de sua armadura certamente não compreenderiam eu ainda sorrir de certas bobagens e ofensas, como se fosse piadas engraçadas, e não responder a altura de seus arroubos, não entenderiam  que aprendi com o tempo que a melhor forma de tratar  a ignorância é se valendo da cortesia.

 

Quando os golpes são profundos, pancadas pequenas já não doem tanto, por isso os lutadores de artes marciais forçam as pancadas nos seu treinos, para que fiquem resistentes no momento do combate. Por que então vou me incomodar com pequenas ofensas de quem pouco me conhece? E nesse momento de contemplação da minha janela pelo lado de fora, entendi que o motivo de me manter trancada é simplismente a paz que o silêncio me  proporciona, não ter que responder aos "porquês" me dá a leveza de respirar sem forçar os pulmões.

 

Voltei para o quarto, sentei-me no peitoril da janela e comecei a escrever, desta vez contemplando a árvore onde comecei  a refletir...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Janela aberta...

E do meu refugio feroz, ouvi o barulho do vento a bater na vidraça da janela, mais uma vez, no entanto tinha uma insistência maior desta, parecia querer entra. Levantei da cama e dei dois passos trêmulos em direção a janela. Parei... Estava chovendo, não uma chuva comum, havia qualquer coisa de luz naquela, um pouco de magia, algo que me chamava para fora...

Faz tanto tempo que não saio deste quarto escuro... Me aproximei da janela, e a luz me fez recuar, a claridade feria-me os olhos de fera acuada, a muito, em seu esconderijo negro e profundo. A porta e as janelas estão fechadas desde o último golpe sofrido, a luz nunca mais foi vista, desde a última visita, e isto faz muito tempo, só as feridas não perceberam isto... Só  a dor continua aqui sem se despedir.

É estranho, mas a janela me chamava, mesmo sangrando quis tentar, poderia ser minha única chance de sair deste inferno sem luz... Então num impulso, quase que involuntário, abri  a janela, o vento entrou tão voraz, me despindo, a chuva molhava meu corpo, cair de tão fraca, mas me deixei ser abraçada por aquela sensação de liberdade, de paixão, de amor...

Não sei ao certo por quanto tempo fiquei alí no chão, totalmente entregue ao vento, mas desde então a janela tem estado aberta, já não fico só na cama e a dor já não mora comigo, tem apenas  me visitado as vezes, pra cutucar uma ferida ou outra mal cicatrizada, mas suas visitas tem sido cada vez menos frequentes... Espero um dia que a carícia do vento me encoraje a também abrir a porta e ir a seu encontro...

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Retalhos

Hoje acordei cedo, levantei tomei um banho demorado enquanto pensava se você já teria respondido o que te perguntei, se teria me dado o último retalho da tua personalidade confusa, ou apenas havia me deixado mais intrigada a seu respeito. Não havia questionado algo difícil de ser respondido, mas também sei que as vezes pergunto coisas complicadas para quem vive querendo parecer ser o que não é.

 

Curiosa liguei o computador, e para disparar do meu coração estava lá a sua resposta, curta e cruel como sempre, o retalho final, a certeza de que o alguém a quem amei era apenas uma fantasia minha, uma imagem perfeita de alguém apaixonado. As lágrimas foram inevitáveis, e para surpresa minha, eu, que jurei nunca mais derramar por você um sopro de sentimento, estava aos prantos. Não conseguia parar, por mais esforço que fizesse... Desliguei de subito o aparelho, me joguei na cama e tentei sufocar o peito dilacerado.

 

Como dói remontar feridas em cicatrizes antigas, mas eu tinha que perguntar, ou morreria na dúvida de suas palavras confusas, de suas declarações de um amor que nunca existiu em você, precisava da certeza para seguir minha vida, fechar esse ciclo e partir para uma página nova, um novo amor, quem sabe? Tudo é possivél quando se está livre, leve. Disponível. 

 

O que sei, é que mais uma vez você se mostrou incapaz de cuidar de mim, de ter qualquer tipo de sentimento, provou o quanto é seco e sem amor, lamentei ter um dia atravesado  a calçada e ido ao teu encontro... Retalhos, lembraças espalhadas, é o que resta de um sentimento tão puro que alimentei por ti.

 

Vou seguir descalça, leve, sem culpa... vou me aventurar errante por aí, e se eu quebrar  a cara não finja que se importa, não precisa. Eu sei bem cuidar de mim. Você foi lição suficiente.
imagem do blog "Reflexões que não levam  a lugar nenhum."