Outono
Acordei um pouco menos cansada hoje, meu coração está leve, não há aquela sensação de fim, nem de começo ou recomeço, só me sinto bem para sair do quarto e ver o que há de novo no jardim...
Nem tinha me dado conta de que o outono chegou, e que a aurora se torna mais leve nesta época do ano, as folhas trazem o frescor do orvalho da noite anterior, por isso o ar fica mais fresco. O céu das sete da manhã de sábado estava claro, custou-me bom tempo para conseguir abrir os olhos sem sentir o incomodo da luminosidade intensa de um azul deslumbrante. Mas quando finalmente conseguir, pude contemplar a beleza dessa imensidão celeste adornada de poucas e belas nuvens brancas, tão alvas e delicadas como o algodão da minha caixa de curativos.
Fui sentar-me em baixo da árvore que fica do lado esquerdo do jardim, bem enfrente a janela do meu quarto, olha-la daqui é estranho, depois de tanto tempo trancada naquela minha redoma planejada nos mínimos detalhes, saí é como se eu estivesse traindo meu único companheiro de solidão... Aquela janela se tornou minha entrada para o mundo real, mas nunca a saída da minha clausura interior. Nem mesmo aqui fora consigo me libertar dessa sensação de solidão profunda, de não pertencimento.
E talvez seja isso mesmo, eu não pertenço a esse mundo, não falo do planeta, mas das formas de convivência, destes comportamentos todos que me causam medo e nojo, desta demasiada e frenética convivência social onde todos falam abertamente o que se passa em seus corações, e eu só consigo mostrar "a ponta do iceberg" o que está na superfíce, tão claro que nem precisava ser dito para ser notado. Mas há quem pense que me dou por inteiro, que falo do meu interior, numa entrega profunda e escancarada.
Chega ser engraçado ver gente se compadecendo de mim, como se estivesse vendo meu coração por inteiro e apenas viu um micro pedaço, que caiu por descuido de alguma ferida mal cicatrizada, se visse minha alma despida de sua armadura certamente não compreenderiam eu ainda sorrir de certas bobagens e ofensas, como se fosse piadas engraçadas, e não responder a altura de seus arroubos, não entenderiam que aprendi com o tempo que a melhor forma de tratar a ignorância é se valendo da cortesia.
Quando os golpes são profundos, pancadas pequenas já não doem tanto, por isso os lutadores de artes marciais forçam as pancadas nos seu treinos, para que fiquem resistentes no momento do combate. Por que então vou me incomodar com pequenas ofensas de quem pouco me conhece? E nesse momento de contemplação da minha janela pelo lado de fora, entendi que o motivo de me manter trancada é simplismente a paz que o silêncio me proporciona, não ter que responder aos "porquês" me dá a leveza de respirar sem forçar os pulmões.
Voltei para o quarto, sentei-me no peitoril da janela e comecei a escrever, desta vez contemplando a árvore onde comecei a refletir...
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